Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

abrasivo on the rocks

A CULPA É DA SERPENTE?

serpente.jpg

Não nos referimos à serpente condenada por Deus a rastejar sobre o seu ventre e a alimentar-se de terra todos os dias. Como poderia tal ser, para muitos mais do que repugnante, seduzir a mulher levando-a a comer do fruto proibido? Falamos do mais astuto dos animais, a crer no relato da Bíblia, e que à astúcia deveria por certo juntar atributos suficientemente convincentes, atraentes e irresistíveis a ponto de convencer a mulher a desafiar o risco de provocar a sua própria morte, se é que na sua santa ignorância poderia a mulher, que com o homem se passeava na inocência de toda a sua nudez pelo jardim do éden, fazer a mínima ideia do que viver ou morrer significavam.

Mas deixemos de parte tais tergiversações. Reza a Bíblia que a mulher não só provou a maçã como, por ter gostado, também a deu a provar ao seu marido, provocando a ira de Deus que a castigou com os sofrimentos da gravidez, as dores do parto e a sujeição ao seu marido, e que condenou o homem ao trabalho durante todos os dias da sua vida.

Hoje já ninguém defende a letra do Génesis nem sequer faz sentido perguntar «isto passou-se realmente assim?». E, no entanto, a sociedade, e independentemente da religião dominante, ainda hoje age ou parece agir como se fosse guardiã e garante do cumprimento daquela justiça divina, quer assegurando e sublinhando a natural – porque faz parte da sua natureza – discriminação do homem e da mulher, que Deus também discriminou condenando-os a duas penas distintas (terá o comportamento do homem merecido uma moldura penal menos gravosa, admitindo que as dores do parto e a sujeição ao marido serão pena mais pesada do que a simples condenação ao trabalho porque se limitou a comer do fruto que a sua mulher lhe ofereceu?), quer procurando assegurar que o homem continua a arrancar o seu alimento à custa de penoso trabalho. Trabalho que hoje, mais do que nunca e quando a própria sociedade o reserva como privilégio de apenas alguns, permeia, condiciona e determina todos os aspectos da vida humana, como se não houvesse vida além do trabalho, como se o homem existisse apenas para trabalhar e apenas onde, quando e durante o tempo que a sociedade entende que o pode e deve fazer.

publicado às 09:13

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

imagem de perfil