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abrasivo on the rocks

A NOTÍCIA DO DESEMPREGO QUE NÃO É NOTÍCIA

O Público revelou ontem que a taxa de desemprego real atingiu os 17,5% no final de 2017, o dobro do oficial. A revelação tem por base «o cálculo efectuado pelos investigadores Frederico Cantante e Renato Miguel do Carmo, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES) do Instituto Universitário de Lisboa, num trabalho que dizem de «desocultação do verdadeiro impacto da crise na cada vez mais frágil e precária relação das pessoas com o trabalho».

O Expresso e o DN fizeram eco desta surpreendente revelação para estes órgãos de comunicação social. A TVI acrescentou-lhe o peso da televisão. E, no entanto, a revelação só é surpreendente para quem se limita a debitar mecanicamente as letras gordas dos boletins que o INE mensal ou trimestralmente publica.

Segundo o Público, estes investigadores, a partir das categorias presentes nos inquéritos ao emprego do Instituto Nacional de Estatística (INE), aos desempregados (individuo sem emprego, mas que o procura activamente e que está disponível para trabalhar), somaram quatro novas realidades: os desempregados desencorajados, os subempregados, os indisponíveis para trabalhar, e os trabalhadores que foram chamados para planos ocupacionais.

Não sei por onde têm andado Natália Faria, a jornalista que assina o artigo do Público, nem os jornalistas que replicam a notícia no Expresso e no DN, mas estas chamadas «novas realidades» nada têm de novo e a sua proclamada novidade é bem o espelho do estado a que chegou o jornalismo em Portugal, se é que ainda há jornalistas em Portugal. Dizem que as estatísticas oficiais mascaram e ocultam a situação real do desemprego, mas se há quem mascare e oculte a situação real do desemprego não são as estatísticas, mas quem as divulga como se fosse um papagaio, ou porque não sabe ler, ou porque apenas está interessado em divulgar aquilo que lhe ordena quem tem poder, afinal, a triste realidade do jornalismo em Portugal.

De facto, os desempregados desencorajados, os subempregados e os indisponíveis para trabalhar fazem parte das estatísticas trimestralmente divulgadas pelo INE e é a partir delas que o INE calcula e divulga a Taxa de Subutilização do Trabalho, que, por sua vez compara com a Taxa de desemprego. São dados que, sem grande trabalho nos permitem elaborar gráficos como estes:

populaçãodesempregada.jpg

taxas.jpg

E à Taxa de Subutilização do Trabalho, como lhe chama o INE, poderíamos muito bem chamar «Taxa de Desemprego Real». Com um pouco mais de trabalho, poderíamos ir até ao IEFP à procura dos «ocupados dos centros de emprego e chegar à «Taxa de Desemprego Redimensionada», como lhe chamam os investigadores. Só não vê e não informa ou informa erradamente quem quer.

E as conclusões, cada um tira as que muito bem entender ou lhe ditar os seus interesses pessoais ou de grupo. Porque se é um facto que as estatísticas oficiais nada ocultam nem mascaram para quem souber e quiser ler, como é que a partir da evolução dos dados dos desempregados desencorajados, dos subempregados e dos indisponíveis para trabalhar pode alguém concluir, como concluem estes investigadores, que os recuos na taxa de desemprego oficial, a um ritmo superior ao da criação de emprego, se conseguiram à custa do aumento destas «situações híbridas, de margem»? Umas situações híbridas que, como facilmente se pode constatar, não têm tido uma variação significativa (até diminuíram ligeiramente) desde o quarto trimestre de 2012, período a partir do qual tem vindo a diminuir a taxa oficial do desemprego em Portugal?

publicado às 09:11

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