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abrasivo on the rocks

A REINVENÇÃO DO SONHO

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Na mensagem de Ano Novo, o Presidente da República fala de um estranho e contraditório ano de 2017, partido quase a meio por um hipotético meridiano com passagem algures por entre a hora 24 do dia 16 de Junho de 2017 e a hora zero do dia 17 do mesmo mês, um meridiano que separaria as reconfortantes alegrias das profundas tristezas (de quem as alegrias, para quem as profundas tristezas? Quem andaria a viver esse sonho apodado de impossível, como se os sonhos pudessem traduzir-se em números de défices, taxas, juros, finanças públicas e economia, num baile mandado de cifras e cifrões ditados pela voz nasalada do chefão da banda da pandilha?), como se as profundas tristezas (a perplexidade de Tancos, o pesar no Funchal, o espectro da seca e, sobretudo, as tragédias dos incêndios) que pesaram largamente no balanço de 2017 fossem indissociáveis das ditas reconfortantes alegrias, como se tudo o que se passou depois do dia 16 de Junho não fosse a consequência de uma prática política baseada na adulação extática e ditatorial dos números ditados por uma visão economicista que, mais do que fragilizar, consome, corrói e destrói a alma de um povo votado ao abandono e ao esquecimento que nem as exéquias da morte brutal conseguiu nem conseguirá apagar. Um povo elogiado pela sua resistência, afecto, iniciativa e fraternidade militante, um elogio fúnebre, aliás, como fúnebre (funesta?) é a proclamada necessidade de reinvenção, uma reinvenção nostálgica, sebastiânica, não a partir das imagens fantasmáticas desenhadas pelo nevoeiro, mas do fumo e das labaredas dantescas dos virulentos incêndios que no Verão passado consumiram Portugal. Uma reinvenção dita com verdade, humildade, imaginação e consistência, mas que encerra em si uma grande mentira. Não foi a vontade de vencer que nos fez recusar a resignação de uma economia e de uma sociedade condenadas ao atraso e à estagnação, foi a resignação que nos fez chegar aqui, a resignação e a ilimitada esperança de que amanhã ainda podemos ser grandes outra vez, se formos como fomos nos instantes cruciais das grandes aventuras, dos grandes riscos, das grandes catástrofes, dos grandes encontros com a nossa História. A História deste Povo, sofrido, sacrificado, abnegado... e tão fofinho, que até dá vontade de abraçar.

publicado às 09:03

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