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abrasivo on the rocks

COURELAS DE LORIGA, OU A DIVINA LOUCURA

courelas de Loriga.jpg

No ar predominavam os aromas da minha infância, do arroz-doce, da morcela, do queijo da serra, do leite-creme, do requeijão e da canela, e passei-me. Passei-me perdido de mim sozinho. Ausente. Presente. E, depois, foi assim.

Peguei em 1/2 requeijão de Seia e bati-o até obter um creme homogéneo. Quando dei por ela, tinha-lhe misturado 3 colheres de sopa de um doce de abóbora que costuma andar aos saltos cá por casa. Como também estavam a minha mulher e o meu filho, cortei 6 fatias de bolo negro de Loriga acabadinho de fazer – não sei como, mas estava mesmo ali em cima da bancada da cozinha – e cortei-as ao meio.

Para o lume, saltou uma frigideira com fundo antiaderente – dizem que nada se perde, tudo se transforma; vão ver que, um dia, esta frigideira ainda vai falar comigo – e, nem sei como, caíram lá dentro umas colheradas de queijo da Serra amanteigado.

É o que dá andarem coisas destas à solta na cozinha.

Com o calor, o queijo derreteu e, completamente loucas, saltaram para cima dele, uma a uma, as fatias de bolo negro.

Caiu a primeira, e besuntou-se de um lado; virou-se, e besuntou-se do outro.

Frenética – foi mesmo assim, de repente tudo ganhou vida – saltou para um prato que estava logo ali à mão.

Mal chegou ao prato, pimba. Levou com uma colher de sobremesa de doce de abóbora.

A segunda fatia entrou na frigideira, rebolou-se no queijo da Serra e, num salto, colocou-se em cima da primeira.

E a terceira imitou em tudo a primeira e, depois, saltou para outro prato que estava logo ali ao lado. A quarta, imitando a segunda, depois de besuntar-se, saltou para cima da terceira. E o mesmo se passou com a quinta e a sexta fatias de bolo, que descobriram um terceiro prato depois do segundo.

A massa do requeijão misturada com o doce de abóbora achou que tinha chegado a hora, dividiu-se em três e deitou-se em cima daquelas camas fofas que estavam mesmo a chamá-la.

E chamaram-me, a mim.

– Também tenho de fazer qualquer coisa – pensei.

Peguei num frasco que andava por ali, abri-o e o praliné de noz decidiu que estava na hora de sair.

Agora que já saboreei, sinto-me como se Loriga estivesse a passar por aqui. 

Se fossem verdes, diria que eram courelas. Courelas de Deus.

 

publicado às 09:09

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