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abrasivo on the rocks

O BOLO NEGRO DE LORIGA COM TODA A SUA MAGIA E ESPLENDOR

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Porque um loriguense nunca desiste, gorados que foram os esforços para encontrar a forma ideal, decidi procurar em Lisboa um artífice que ainda se dedicasse à velha arte da latoaria. A minha busca levou-me até à Latoaria Maciel, uma casa que tem as suas origens em 1798 e que, ainda hoje, agora nas novas instalações, no número 6 da Rua da Boavista, continua o seu objectivo de dignificar aquela arte em extinção. E é graças a ela que neste momento posso finalmente apreciar o bolo negro de Loriga com toda a sua magia e esplendor: negro, aromático, misterioso, ergue-se como um cântaro da Serra a partir da bancada negra da minha cozinha.

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Um cântaro talhado a régua e esquadro, como talhados a régua e esquadro eram os rostos de meu pai e de meus avôs, gente de antes quebrar que torcer, gente de fé e de esperança, sobretudo nos tempos difíceis. Aos meus avôs nunca lhes toquei o rosto, apenas sei deles a partir de umas velhas fotografias encontradas no espólio de meu pai, cedo partiram, ainda eu não era nascido e mal nascidos eram os meus pais – e por lá se finaram –, um em busca da sorte no Brasil, outro por terras funestas e doentias do antigo Congo Belga. Como partiria meu pai não para tão longe, mas para Lisboa, tinha eu dez anos, porque a fábrica onde trabalhava durante o dia – Nova se chamava, mas novas eram as máquinas que lhe faziam concorrência noutras paragens – e as terras que cultivava à noite já não lhe permitiam sustentar condignamente um rancho de sete filhos, para os quais ele sonhara um futuro muito diferente do seu.

Nos últimos anos de vida, o meu pai, que nunca fora dado às coisas da cozinha, não se cansava de procurar replicar, até em formas redondas e com buraco, o bolo negro de Loriga, como se de uma experiência alquímica se tratasse, como se ao fazê-lo pudesse de algum modo escrever ou reescrever a sua história, a nossa história, uma história que, apesar da distância, não tanto pelo número de quilómetros, mas ditada sobretudo pela ausência – uma ausência a que não foi alheia a visita da morte que, na hora da partida, decidiu, silenciosa e fria, levar com ela a mãe de minha mãe depois de a ter feito cair redonda sobre a mesa onde almoçava –, é e será sempre inseparável de Loriga.

E hoje, ao olhar para o meu bolo negro de Loriga, ao qual, finalmente, depois de ter conferido a cor, o aroma e a textura, também conferi a forma e as medidas – como se também eu tivesse procurado replicar as fórmulas de Moisés e Zózimo para a duplicação do ouro –, não tenho dúvidas: este bolo é o espelho do corpo e da alma das gentes de Loriga, embora digam que deve a sua origem a uma colónia inglesa que, no século XIX, ali se estabeleceu.

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E, se Loriga deve o seu nome a lorica, a armadura que protegia os legionários romanos – Loriga ainda hoje ostenta, bem lá no alto, as suas indestrutíveis e inexpugnáveis ombreiras, as penhas do Gato e dos Abutres, uma de cada lado da sua garganta, de onde partem em correria por entre fragas e calhaus os dois braços da ribeira que lhe definem e armam o corpo coberto não por segmentos de ferro, mas moldado pelo vermelho e branco do casario e pelo verde das courelas em socalcos  –, a forma do bolo negro de Loriga ergue-se como uma paliçada intransponível para que a massa, protegida, possa crescer no calor do forno sem se derramar.

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E o meu bolo cresceu. E, o que é mais impressionante, cresceu e desenhou, bem definidas, as duas penhas e a garganta de Loriga. A farinha que o encima remete-me para a imagem de infância que ainda hoje guardo da minha terra.

Era branco o cume da montanha com a neve. Lembro-me de vê-lo cá de baixo, criança ainda, quando ia para a escola. Primeiro, era uma orla ligeiramente acinzentada com uma falha aqui e ali e, depois, era completamente branco.

No alto do Cabeço, onde ficava a minha casa, quando estava de costas para a montanha, do lado direito e esquerdo também havia montanha, mas não havia montanha à minha frente. Aí, sempre pensei que fosse o mar – que hoje sei que não era –, mas, na altura, lembro-me de me terem dito «a água corre para o mar, o mar é azul», e era para ali que por acaso era azul da cor do mar, um azul diferente do azul do céu, era do efeito da luz da montanha que ali desaparecia e dos tons esverdeados das árvores da floresta, lembro-me de que tinha medo da floresta, histórias de lobos e lobisomens, e de bruxas velhas de nariz adunco, e de mafarricos vermelhos e cornudos, era para ali, dizia eu, que corria a água das duas ribeiras da minha terra.

A minha terra era uma espécie de presépio, com casas espalhadas pelos socalcos da montanha e com um grande aglomerado de casas mais abaixo montadas numa colina regada pelas duas ribeiras que, partindo da garganta da Serra e depois de, através de um intrincado sistema de regos, açudes, cascatas e levadas, terem mandrilado e mapeado courelas, moinhos, fábricas, poços e fragas, se juntavam numa só ao fundo da vila para continuarem, juntas, a correr para o rio que as faria chegar ao mar, que, diga-se, ainda ficava e fica muito longe dali.

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E longe daqui já estou eu: O meu bolo negro de Loriga ergue-se agora como um enorme megálito negro no adro de Loriga, como outrora se erguiam as labaredas que se elevavam na noite escura a partir da montanha de tocos da fogueira de Natal, e o aroma que exala não é o simples aroma do pau de canela moído. Como na minha infância, o seu aroma voltou a ser o doce e aveludado aroma do pólen da flor da caneleira e estralejam e brilham no ar fagulhas de magia. E o mistério espreita. De súbito, ouve-se um estrondo e um osso enorme sobe e paira suspenso. A magia da vida. 

publicado às 09:06

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