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abrasivo on the rocks

O TRABALHO LIBERTA?

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 A pergunta fica no ar movendo-se insidiosa, provocadora ou profanante, ínscia, por entre um turbilhão de imagens que pululam no silêncio que paira para lá do portão de ferro forjado de Dachau, outrora sacudido pelo matraquear seco e surdo, osso contra osso, de corpos mirrados que o atravessavam trôpegos a caminho de mais um dia de trabalho de escravo, e que se erguem em surdina entre o coro de hebreus que, prisioneiros e escravos de Nabuco, cantam a pátria bela e perdida enquanto descansam acorrentados nas margens do Eufrates, um coro repercutido em hosanas de vozes negras destilando suor nos campos de algodão da Luisiana, ou no grito de 500 mil em marcha pelas ruas de Chicago, no ribombar dos canhões de Navarone e no silêncio da morte em Nagasáqui e Hiroxima, no som metálico da espada contra espada e do escudo contra escudo dos gladiadores romanos, e no martelo que bate ritmado o ferro em brasa na bigorna do ferreiro, no som cavo da enxada que rasga a terra do latifúndio alentejano, na foice que sega sibilante os campos de trigo, na zaragata ensurdecedora das lançadeiras que na minha infância distribuíam lã nos teares da fábrica Nova de Loriga, no atropelo vociferante que compra e vende acções em Wall Street, nas teclas do computador que debita no ecrã notícias de última hora, no soalho roçado que recebe o sangue dos joelhos rasgados da mulher-a-dias, na voz professoral que declama contas de somar e de subtrair a propósito de um comboio que parte de Lisboa para o Porto ou da água da torneira que enche o tanque do quintal, sons e imagens que se fundem e perpetuam e que confundem, que se agigantam e esvaem num espasmo quando o grito de uma mulher se consome de alegria mal a cabeça de uma criança lhe rasga as entranhas convulsas em trabalho de parto, o fruto das dores misericordiosas da criação divina na sua luta perdida contra a serpente e contra a natural aspiração do homem ao conhecimento que um dia o vai libertar da praga do jugo do trabalho.

publicado às 09:03

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