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abrasivo on the rocks

PEDRÓGÃO, O FUMO DA JUSTIÇA

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 Ao ler que o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande e o segundo comandante distrital de Leiria eram os dois primeiros arguidos confirmados na investigação aos incêndios de Pedrógão Grande, trouxe-me à memória a imagem com que fiquei de Augusto Arnault, o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, sentado, de mangas arregaçadas, mãos juntas e apoiadas na secretária, olhar seráfico, rosto imóvel, como se fosse o xerife de um velho filme de cowboys, a quem só faltava o palito na comissura dos lábios, responder a Sandra Felgueiras que todos os dias recebia comunicados do CDOS de Leiria, que, apesar do alerta para o risco de ocorrência de incêndios no concelho, tinha decidido não reforçar o dispositivo, que o dispositivo era o que se mantinha, e que não tinha informado o CDOS de que só tinha seis elementos para combater um eventual incêndio porque o CDOS sabia perfeitamente os meios que tinha.

Em causa estava o comunicado do CDOS de Leiria, datado de 15 de Junho de 2017, que alertava para as condições meteorológicas adversas e para o risco de incêndio e que era dirigido às Autoridades Políticas Municipais, aos Serviços Municipais de Protecção Civil, aos Agentes de Protecção Civil e Entidades Cooperantes, CMDFCI e aos Oficiais de Ligação ao Centro de Coordenação Operacional Distrital.

Na reportagem do Sexta às 9, de 30 de Junho de 2017, Sandra Felgueiras apresentou este comunicado ao comandante dos bombeiros voluntários de Castanheira de Pêra que, com a maior das descontracções, respondeu que o não tinha lido porque não tinha tido tempo, além disso não era bombeiro, era instrutor de condução; o comandante dos bombeiros voluntários de Figueiró dos Vinhos também o tinha recebido, mas pelo olhar que lhe deitou percebeu-se perfeitamente a pouca ou nenhuma importância que lhe atribuiu; o presidente da câmara de Pedrógão olhou para o comunicado como boi para um palácio, não sabia o que era, era a primeira vez que o via, nunca o tinham alertado para isso, nunca lhe mandaram papelada daquela, ficava de alerta para o futuro.

Nesse dia, proferi o meu veredicto e, seja qual for a quantidade e a qualidade do fumo que a justiça venha a fumegar, nada o irá alterar:

Aquele comunicado e a inacção perante aquele comunicado eram a prova, se prova era necessária, de que não havia nem há Protecção Civil em Portugal. E só se fará justiça no dia em que todos formos condenados, todos, sem excepção: Quem nos diz que há e é responsável pela Protecção Civil, a própria Protecção Civil que não existe, nós, que inocentemente acreditamos ou acreditámos que há Protecção Civil, e a própria Justiça, a não ser que, num acto de suprema contrição, não se limite a fumegar, mas decida atear o fogo regenerador que a todos, incluindo a própria Justiça, remirá.

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publicado às 09:10

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