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abrasivo on the rocks

AUTOEUROPA, O BALÃO DE ENSAIO

Era um poço de virtudes, dada como exemplo de diálogo e paz social durante 20 anos, mas foi atacada por um vírus, que a CGTP colocou na empresa, segundo António Saraiva, e os seus plenários foram invadidos por agitadores profissionais da esquerda radical, segundo Carlos Silva, o autoproclamado defensor e dirigente dos trabalhadores portugueses. E já há quem tema pela independência de Portugal.

Biltres!

E, no entanto, nada de novo. Apenas mais uma etapa nesse enorme balão de ensaio que dá pelo nome de Autoeuropa e, onde, uma a uma, são testadas as diferentes leis com que se vão agrilhoando os trabalhadores portugueses. Chamem-lhe vírus, chamem-lhe agitadores. O que está em causa na Autoeuropa é o fim do direito ao descanso. Em matéria laboral, será o regresso ao final do século XIX. Provavelmente como exemplo de diálogo e paz social.

publicado às 09:05

AUTOEUROPA DESLOCALIZADA PARA A COCHINCHINA

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Ou para o reino de Prestes João.

Depois de tudo o que se disse por causa de um dia de greve, não me parece que possa ser outra a decisão.

Como pode a Autoeuropa sobreviver em Portugal, como pode Portugal sobreviver quando a fábrica da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, vai interromper a produção de 26 a 29 de Dezembro «devido a quebra no fornecimento de peças»?

Entretanto, foram retomadas as negociações que visam obrigar os trabalhadores a trabalhar ao sábado. Se houver peças, claro.

publicado às 21:15

CRISTAS AO DESAFIO

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Como uma galinha doida depois de ter visto o galo vaidoso sair pela porta escancarada do galinheiro, Assunção Cristas não se cansa de bater asas e cacarejar. Desta vez decidiu desafiar o Governo a «chamar à razão» PCP e BE, que diz estarem «por detrás da teia de dificuldade» nas negociações entre trabalhadores e administração da Autoeuropa.

Imagino que o Governo deve chamar o PCP e o BE, deitá-los no colo com o rabinho ao léu virado para a Lua e dar-lhes tautau enquanto alanzoa qualquer coisa do género:

Meus meninos depravados, vamos lá acabar com esta brincadeira, deixem-se dessa luta político-partidária que arrastou a Autoeuropa para uma situação inédita. Então os meninos não sabem que os países disputam e procuram ter as melhores condições competitivas para atrair investimento? Que é muito importante para o nosso país não perdermos a Autoeuropa, que é um grande exportador, e, sobretudo, não deixar uma marca negativa de que aqui não é possível trabalhadores e administrações de empresas chegarem a acordo? Não ouvem o que diz o nosso afectuoso professor Marcelo? Que é necessário que a Autoeuropa continue a ser um exemplo não apenas de excelência e qualidade, mas também de convivência social? E que isso é não só importante para os trabalhadores da Autoeuropa mas é igualmente importante para os trabalhadores que trabalham em empresas ligadas à Autoeuropa e é importante no fundo para o clima de paz social, estabilidade e crescimento económico que se tem vivido em Portugal nestes últimos dois anos? Ora, meus meninos, portem-se bem, deixem de fazer cocó fora do penico, mantenham esta geringonça a funcionar e digam aos vossos rapazes que têm de chegar a acordo com a administração da Autoeuropa, quer ela queira, quer não.

É evidente que, para Assunção Cristas, os trabalhadores são uma cambada de carneiros que se limitam a acatar pacificamente as ordens de um qualquer pastor ou cacique que se lhes apresentem pela frente. E nem o facto de os trabalhadores já terem recusado dois pré-acordos celebrados entre a administração e a comissão de trabalhadores que elegeram (duas comissões diferentes: a última foi eleita depois da rejeição do primeiro acordo) parece ser suficiente para iluminar aquele cérebro de galinha.

De facto, os trabalhadores não são carneiros, não se limitam a seguir comissões de trabalhadores, e não querem saber de hipotéticas guerras de alecrim e manjerona entre PCP e BE quando uma administração decide pôr em causa os seus direitos, sobretudo um dos seus direitos fundamentais, direi mesmo, o direito fundamental do homem, o direito ao descanso, o direito de que só o próprio pode decidir privar-se, o direito que distingue o homem dos carneiros e de todos os outros animais, galinhas incluídas, o direito que torna o homem igual a Deus, a grande criação do homem, e que ao sétimo dia descansou para apreciar e gozar plenamente toda a obra da Sua criação.

publicado às 09:08

TRABALHADORES DA AUTOEUROPA CHUMBAM PRÉ-ACORDO

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 Pela segunda vez, num curto espaço de tempo, os trabalhadores da Autoeuropa chumbam um pré-acordo negociado entre a administração da empresa e a comissão de trabalhadores.

A primeira vez aconteceu em Julho, provocou a demissão da comissão trabalhadores e levou à realização de uma greve no dia 30 de Agosto. Uma greve que não houve cão nem gato que não condenasse. Dizia-se que era uma guerra partidária, que até o homem – só podia ser um super-homem – que tinha conseguido regalias incríveis para quem ali trabalhava estava contra, que a empresa, em troca, até garantia aos trabalhadores mais um dia de férias e 175 euros por mês, que os trabalhadores deviam orgulhar-se por a empresa em que trabalhavam ter sido escolhida para produzir o T-Roc – eventualmente uma espécie de novo T-Rex da VW –, que o país inteiro estava contra os trabalhadores, que os trabalhadores da Autoeuropa eram a aristocracia operária em Portugal, que eram os mais bem pagos, os que tinham melhores condições, que estavam em causa 10% das nossas exportações, 0,8% do PIB nacional, que a empresa podia ser deslocalizada, que, se a Autoeuropa se fosse embora, Portugal nunca mais conseguiria atrair nenhuma grande empresa, todo um sem-número de argumentos em que havia lugar para tudo menos para o homem que ali trabalha e que apenas reclama o direito a parar dois dias seguidos para poder descansar e contemplar a grandeza da obra realizada.

Ontem, noventa dias depois da greve, os trabalhadores votaram e chumbaram o pré-acordo negociado pela nova comissão de trabalhadores.

Não são conhecidas grandes reacções. A administração diz que está a analisar os resultados, Vieira da Silva admite que este impasse representa um risco para a fábrica de Palmela e apela a todos os intervenientes para que encontrem soluções, Manuel Caldeira Cabral apela ao sentido de responsabilidade dos trabalhadores e dirigentes, o líder da comissão de trabalhadores, Fernando Gonçalves, diz que o novo passo deve ser o retomar das negociações e salienta que ainda há tempo para chegar a um acordo.

Descarto a administração, descarto Vieira da Silva e Manuel Caldeira Cabral, mas pergunto-me: com quem pretende negociar e chegar a acordo Fernando Gonçalves? Com a administração, com a qual já foram celebrados dois pré-acordos que os trabalhadores posteriormente rejeitaram?

E com que força e credibilidade se pode partir para a negociação de um terceiro acordo? Porque há-de a administração negociar com uma comissão de trabalhadores que, sucessivamente, vê recusados os pré-acordos celebrados?

Não aconselharia o bom-senso que o próximo passo da comissão de trabalhadores fosse descer à terra para ouvir o que os trabalhadores que representa têm para dizer? Saber com que linhas se pode coser? Saber quais são, na opinião dos trabalhadores que representa, as linhas que definem e limitam a sua capacidade negocial?

Ou será que nada disto tem que ver com bom-senso? Que tudo isto nada tem que ver com laboração contínua versus descanso semanal, mas com um processo subterrâneo que visa minar o poder de quem trabalha e destruir a própria comissão de trabalhadores enquanto órgão de exercício de poder pelos trabalhadores?   

publicado às 18:22

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