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abrasivo on the rocks

DO REEMBOLSO DO IRS

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Anda tudo num virote desde o dia 1 de Abril. Multiplicam-se as notícias. Os números não param de crescer. Duzentos mil, 450 mil, 600 mil contribuintes já entregaram a declaração de IRS. O sistema não aguenta. Os contribuintes desesperam. O reembolso de IRS segue já para 100 mil, diz o Correio da Manhã.

Tendo-se abotoado ao longo do ano com o dinheiro dos contribuintes, o Estado proclama as grandes Dionísias de Abril, a grande Bacanal da Primavera, como se o reembolso do IRS fosse, em si, uma dádiva, o bodo dos deuses.

Os media rejubilam e aplaudem a divindade.

O Governo, pelo seu lado, promete celeridade no processo. No entanto, ao mesmo tempo que com uma mão vai devolvendo parte do dinheiro com que ao longo do ano se abotoou, com a outra vai surripiando outro tanto para que em Abril do próximo ano o povo possa mais uma vez celebrar à tripa forra o seu reembolso, a dádiva dos deuses que, mais uma vez, celebrará na cegueira de tamanha bebedeira, que nem repara que o Estado apenas se limita a devolver-lhe anualmente uma pequena parte daquilo de que indevidamente e ao longo do ano se apropriou.

Pão e circo!… 

E ninguém grita: Agarra que é ladrão!

publicado às 09:02

«O MEU NOME É COSTA, ANTÓNIO COSTA

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e, ao contrário de Bond, James Bond, não estou ao serviço de Sua Majestade. Sou apenas o primeiro-ministro de Portugal, um pequeno jardim à beira-mar plantado.»

A cena não faz parte de nenhum dos filmes da série 007 e Costa não enfrenta nem segue a pista de nenhum polvo azul. Costa não desafia o perigo nem enfrenta a morte e também não se atreve a encarar Mortágua, a Mariana, que discursa no Parlamento e que, com o seu tradicional ar seráfico, quase esfíngico, lhe atira à cara «o Governo não honrou a palavra dada» para mais adiante o atingir com uma luva branca ao confirmar que o BE, apesar da traição, irá votar a favor do Orçamento: «Para nós, palavra dada é mesmo palavra honrada.»

O silêncio de Costa é sepulcral, de morte. Pela boca morre o peixe, dirão alguns, ao ouvir Mortágua recordar a Costa a honra que repetidamente proclamou. A bancada do PS tinha pedido nova votação da proposta para uma contribuição a pagar pelas empresas de energia renovável, apresentada pelo BE, e chumbara-a depois de a ter aprovado na última sexta-feira.

A câmara foca-o, aproxima-se, Costa não transpira, não treme, não deixa transparecer um esgar e muito menos quebra o silêncio que o envolve e envolve toda a bancada do PS. O silêncio que vale mais, muito mais do que mil palavras. Quando a câmara abre o ângulo, é possível ver para onde Costa desvia momentaneamente o olhar e fácil é perceber a única coisa que o seu silêncio ainda tem para dizer: «Não foi o meu governo que entregou a EDP ao polvo amarelo.»

A culpa nunca é dele, afinal. Não é espião nem herói, é apenas o primeiro-ministro de Portugal e os lobbies do poder podem continuar a contar com ele.   

publicado às 10:54

O DIABO VESTE ROSA?

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Tudo começou há dois anos com uma dor que me corria a espinha de baixo a cima e me impedia de trabalhar sentado à frente do computador. Ou talvez fosse a barriga obesa e redonda que a inactividade tornara flácida. Quando me pesei, os números da balança digital aproximaram-se dos 90.

Desde esse dia, mal me levanto, faça sol ou faça chuva, corro para o parque da Bela Vista. A subir e a descer, alternando caminhada com corrida, percorro todos os caminhos, cerca de 10 quilómetros. No final, agarro-me ao TRX, que prendo num pinheiro, acrescento uns abdominais, umas flexões, salto à corda sem corda, junto-lhe uns agachamentos, uns burpees, umas elevações de braços e outros exercícios do género e regresso a casa como novo. Revigorado no corpo (agora não passo dos 68 quilos, mesmo sem deixar de comer e de beber tudo o que me dá prazer) e no espírito. Porque o espírito também acompanha o ritmo desenfreado de todos aqueles exercícios, ora perdido em divagações sobre o mundo, sobre o homem e o sinuoso caminho para a imortalidade, ora prisioneiro das coisas simples da vida, o que irei cozinhar para o almoço?, ora praguejando contra tudo e contra todos, contra deus e o diabo e contra os seus filhos também.

Ontem mandei os exercícios às malvas. Com as palavras de Costa

não nos basta que o diabo não tenha vindo, é preciso garantir que o diabo não vai vir mesmo no futuro. Para garantir que o diabo não vem no futuro, nós temos de dar cada passo como demos até agora: com segurança e confiança de que não estamos a dar hoje algo que alguém vai ter de tirar amanhã

a baterem-me forte na cabeça, corri sem parar, em passada larga, batendo com raiva no asfalto, arrastando atrás de mim um turbilhão de imagens e ideias enquanto Costa continuava a gritar acima de mim como um possesso:

a ilusão de que é possível tudo para todos, já não existe isso

Portugal não pode sacrificar tudo o que conseguiu do ponto de vista da estabilidade financeira, porque isso, no futuro, colocaria em causa o que foi até agora conquistado.

Aqui, embora os meus pés não parassem de correr, o meu cérebro como que bloqueou. «Mas que conquistas?», perguntei-me.

Lentamente fui acossado com um ligeiro aumento das pensões, o apagão faseado da sobretaxa do IRS, a reposição dos salários na função pública, a promessa da descida do IRS, o termo reversões acendeu intermitente e difuso uma ou outra vez no meio da escuridão, até que fui possuído pelas chamas incandescentes do inferno da floresta a arder, pelos gritos agonizantes e desesperados das vítimas surpreendidas pelo fogo, pelo som estridente das sirenes das ambulâncias e dos carros dos bombeiros desgovernados, perante a desorganização e a impotência de uma Protecção Civil sem rei nem roque e que não sabia o que fazer, perante o balbuciar mudo de um governo que não sabia o que dizer e que também não tinha ouvidos para ouvir.

Primeiro estávamos em Junho e logo a seguir em Outubro, tudo repetido, tudo igual, sem norte, sem prevenção, sem meios, sem sentido e sem governo, tragédia seguida de tragédia, porque a água não passa duas vezes sob a mesma ponte, deve ter pensado quem nos governa, mas passou por Tancos, e já a Web Summit estava aí para nos salvar, no entanto, também ela se consumiu na indignidade de um jantar à luz de velas e círios que arderam no Panteão, e nem São Francisco Xavier nos salvou permitindo que a legionella infectasse quem ao seu hospital correu para se curar, expondo a nu as fragilidades de um sistema de saúde também ele prisioneiro e vítima das malhas de uma austeridade encapotada sob uma proclamada economia de rigor, a EMA bateu asas e voou para Amesterdão, como podia o governo não acreditar que esta ema não voaria para o Porto?…, mas ainda restava a EMA da gente:

A EMA da gente

É o Infarmed da gente,

A gente briga por causa do Infarmed da gente…

O meu cérebro andava agora num turbilhão propulsado pelo ritmo dos pés que não paravam de bater no asfalto, e saltou para o défice, bateu no défice com estrondo, o défice que nos mantém cativos e que traz o governo cativo numa roda viva de caladas cativações para que aos nossos olhos a rosa continue bem fermosa, este governo que com mesuras e algumas concessões a esquerda amansa, uma esquerda que numa leda mansidão o governo acompanha, não vá a sua revolta trazer de novo o papão que ostracizou, e que, numa cegueira que entranha, não estranha que o défice diminua apesar das reversões.

O défice das administrações públicas foi de 1838 milhões de euros até Outubro

Uma melhoria de 2664 milhões de euros

O excedente primário totalizou os 5762 milhões de euros, o que traduz um crescimento de 2765 milhões de euros,

Tanto excedente primário para que possamos empanturrar os que se alimentam dos juros da dívida pública, tantos milhões a menos no diabo do défice, que tem de continuar a diminuir para não colocarmos em causa o que até agora foi conquistado, tão pouco défice, o défice que nos mantém cativos e nos impede de viver a vida vivos, e tanto diabo...

E se o diabo, afinal, vestisse rosa?

Quando dei por mim estava a entrar em casa. Deve ter sido o que me salvou. Estava prestes a balbuciar: «Volta Passos, estás perdoado!»

Que o diabo me perdoe! A mim, que saltei e dancei setenta e sete vezes sobre a sua campa ainda o maldito Coelho estrebuchava nas mãos sagazes do caçador.

publicado às 12:08

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