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abrasivo on the rocks

CARPE DIEM

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«Carpe diem, quam minimum credula postero», terá diro Horácio à sua amiga Leucóneo.

Difícil será imaginar Horácio a proferir estas palavras vendo a sua amiga Leucóneo ser consumida pelas labaredas de Pedrógão Grande.

No entanto, depois de tudo o que se disse, ouviu, escreveu e leu sobre Pedrógão, e quando ouvimos e lemos, no dia 10 de Setembro de 2018, que a dita Associação de Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande, dizendo-se «defraudada na boa gestão por parte das entidades públicas nacionais, regionais e locais», quer ter acesso a fotocópias certificadas da lista de edificações elegíveis como primeira habitação apurada no levantamento do Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana; à lista complementar apresentada pela Câmara de Pedrógão e à lista final que serviu de base para os trabalhos de distribuição dos fundos, com a localização, o custo e os beneficiários explicitados. Que quer ainda ter acesso ao valor total em conta do fundo solidário mantido pelo município e aos critérios de distribuição, assim como dos fundamentos técnicos subjacentes à tomada de decisão, quais foram as entidades envolvidas, as que validaram o processo e os prazos perspetivados. E que espera «que este seja o princípio da purga e do lavar de consciência que devemos todos, sobretudo os seus responsáveis, à sociedade e às vítimas desta tragédia que parece não ter fim», Horácio só pode mesmo ter razão.

Leucóneo, tu que ardeste e te consumiste no dia 17 de Junho de 2017, em Pedrógão, «carpe diem, quam minimum crédula postero».

publicado às 09:20

O OUTRO RELATÓRIO SOBRE A TRAGÉDIA DE PEDRÓGÃO

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Muito se tem dito e escrito sobre o relatório que estava em segredo de justiça porque o Governo decidiu atirar com ele para o Ministério Público. Dizem que o relatório fala de descoordenação, desorganização, má avaliação, de ausência de operacionais, de documentos apagados e destruídos.

Porque ontem se demitiu o Comandante Nacional da Protecção Civil, decorridos apenas cinco meses da sua tomada de posse, e porque o ministro da Administração Interna declarou ter ficado «muito surpreendido com referências a um trabalho da própria estrutura da ANPC – promovido pela ministra que me antecedeu [Constança Urbano de Sousa] e que analisou um conjunto de factos relativos aos incêndios de Pedrógão Grande – que alguns tenham dito que havia intenção de iludir as suas conclusões», aqui deixo o meu relatório sobre o relatório entretanto tornado público pelo Ministério Público.

É um relatório simples, sem as confusões de uma análise ao cumprimento das normas constantes do SIOPS, à implementação e cumprimento do SGO, à articulação do posto de comando da ocorrência, do CDOS de Leiria e dos diferentes agentes de protecção civil envolvidos, como se propôs o processo de inquérito que deu origem ao controverso relatório. É um relatório simples feito apenas de transcrições do relatório oficial, sem ilusões nem ilusionismos, sem considerações e sem conclusões. Para quem estiver interessado indicam-se as páginas do relatório de onde foram feitas as transcrições.

Registe-se apenas que o PCO é o órgão director das operações no local da ocorrência destinado a apoiar o COS (comandante das operações de socorro) na tomada das decisões e na articulação dos meios no TO (teatro de operações).

 

(página 38 e 39)

Afirma o Major …, do Comando Territorial de Leira da Guarda Nacional Republicana:

«Cheguei ao local do incêndio pelas 18h15m.

Ao aproximar-me de Pedrógão Grande contactei o Comandante de Posto de Pedrógão, que informou da localização do PCO.

Cheguei ao PCO em Escalos Fundeiros, onde à porta de um edifício se encontrava uma mesa com quatro cadeiras, tendo um computador portátil, com o Google Earth aberto, onde se encontravam dois elementos dos bombeiros que procediam ao que parecia ser a sectorização do incêndio. Após apresentação ocupei também um lugar na mesa, deixando desde logo o meu contacto telefónico.»

 

Refere …, Comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Ansião:

«Ao chegar ao local do incêndio o PCO estava montado em Escalos Fundeiros, sendo COS o Cte. …, do CB de Pedrógão Grande. Encontrava-se lá também o Adjunto do CB de Pombal …, e um Oficial bombeiro do CB de Castanheira de Pera, o Presidente da Câmara de Pedrógão Grande e mais umas pessoas. Coloquei-me à disposição do COS para o que precisasse.

O PCO não possuía ainda as funções atribuídas, estavam a delinear uma estratégia para abordagem do incêndio, solicitavam-se meios e esperava-se a chegada de outros. Estávamos junto à Associação Recreativa que ali existe, utilizando umas mesas que a mesma cedeu, apontava-se tudo em papéis porque não havia quadros de meios, aguardava-se a chegada de uma VCOC. Tínhamos as cartas militares fornecidas pelo Sr. Cte. … e o portátil pessoal do Oficial …. Foi neste instrumento que se registaram os primeiros apontamentos.»

 

(página 40)

Diz …, Adjunto de Comando do Corpo de Bombeiros Voluntários de Pombal:

«Ao chegar a Pedrógão dirigi-me para Escalos Fundeiros, onde tinha notícia que se situava o incêndio. Fui direito à Associação Recreativa onde estava localizado o PCO.

Quando cheguei, já lá estava o Oficial bombeiro … do CB de Castanheira de Pera. Estavam umas mesas da Associação cá fora e o … utilizava-as tendo sobre elas um computador, cartas militares e rádios.»

 

(página 41)

Diz …, oficial bombeiro de 2.ª do Corpo de Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera:

«No caminho perguntei a um elemento da GNR onde estavam o Comandante de Pedrógão que me encaminhou para Escalos Fundeiros. Ao chegar encontrei lá o Comandante … do CB de Pedrogão Grande, que era o COS no momento. Em troca de impressões com o Cte. … foi decido montar ali o PCO até à chegada do veículo do CB de Peniche (VCOC), que já tinha sido accionado. Pedi as mesas na Associação Recreativa de Escalos Fundeiros e uma linha de corrente. Abri o meu computador pessoal, pus as cartas militares em cima das mesas, elaborei um SITAC e fiz um KMZ para a operação.»

 

(página 42)

Alude …, chefe do Corpo de Bombeiros Voluntários de Peniche:

«Foi-nos comunicado para nos dirigirmos para o sítio onde estava o PCO, em Escalos Fundeiros, junto do Associação Recreativa. Estavam lá vários elementos, havia um SITAC elaborado numa carta militar, em cima de uma mesa.»

 

(página 43)

Afirma …, subchefe do Corpo de Bombeiros Voluntários de Peniche:

«Seguimos para Escalos Fundeiros e o PCO estava montado numa Associação Recreativa que ali existe. No local, no exterior da Associação havia um computador montado em cima de uma mesa e uma carta militar com um SITAC traçado, bem como vários rádios SIRESP.»

 

(página 46 e 47)

Diz …, chefe do Corpo de Bombeiros Voluntários de Peniche:

«Foi-nos comunicado para nos dirigirmos para o sítio onde estava o PCO, em Escalos Fundeiros, junto da Associação Recreativa. Estavam lá vários elementos, havia um SITAC elaborado numa carta militar, em cima de uma mesa. Montámos os equipamentos e começámos a fazer testes tendo detectado que não existiam boas condições de captação, nem de internet nem de SIRESP. Informámos deste problema o Sr. Comandante do CB de Pedrógão Grande. Nesse momento chegou o 2° CODIS, …. Nesse momento foi-lhes comunicado não existirem condições para o veículo ali trabalhar. Ambos decidiram que iriam tentar encontrar uma melhor localização para colocar o veículo. Arrumámos os equipamentos e seguimos para um terreno (aterro) junto das oficinas da Câmara de Pedrógão.»

 

Relata …, subchefe do Corpo de Bombeiros Voluntários de Peniche:

«Recebemos ordem para nos deslocarmos para Escalos Fundeiros. Ao deslocarmo-nos para lá encontrámos o nosso Comandante que se encontrava numa zona de aterro o qual interrogou o COS, via SIRESP, se queria relocalizar ali o PCO, ao que mesmo disse que não. Seguimos para Escalos Fundeiros e o PCO estava montado numa Associação Recreativa que ali existe. No local, no exterior da Associação havia um computador montado em cima de uma mesa e uma carta militar com um SITAC traçado, bem como vários rádios SIRESP. Começámos a montagem do veículo que demorou cerca de dez minutos, tendo tudo o que estava na mesa transitado para dentro do veículo, começando a preencher os painéis existentes com a informação que havia. Quando concluímos a montagem das comunicações reparámos que a rede GSM estava em baixo e começavam a sentir-se constrangimentos na rede SIRESP. Os visores indicavam “modo local” e “busy call”. Tal foi reportado ao 2.° CODIS … que se encontrava entretanto no local. Era impossível por falta de rede aceder à internet, bem como efectuar contactos telefónicos. Entretanto é decidido pelo COS e pelo 2.° CODIS relocalizar o veículo e PCO.»

 

(página 50)

Diz-nos …, oficial bombeiro de 2.ª do Corpo de Bombeiros Voluntários de Castanheira de Pera, que desempenhou primeiramente as funções de Chefe da Célula de Planeamento:

«Pedi as mesas na Associação Recreativa de Escalos Fundeiros e uma linha de corrente. Abri o meu computador pessoal, pus as cartas militares em cima das mesas, elaborei um SITAC e fiz um KMZ para a operação.»

 

Refere …, Adjunto de Comando do Corpo de Bombeiros Voluntários de Pombal, que desempenhou primeiramente as funções de Chefe da Célula de Logística:

«Estavam umas mesas da Associação cá fora e o … utilizava-as tendo sobre elas um computador, cartas militares e rádios.»

 

(página 51 e 52)

Relata-nos …, Comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Ansião, que desempenhou primeiramente as funções de Chefe da Célula de operações:

«Estávamos junto à Associação Recreativa que ali existe, utilizando umas mesas que a mesma cedeu, apontava-se tudo em papéis porque não havia quadros de meios, aguardava-se a chegada de uma VCOC. Tínhamos as cartas militares fornecidas pelo Sr. Cte. … e o portátil pessoal do Oficial … Foi neste instrumento que se registaram os primeiros apontamentos.»

 

Indica o Major …, que desempenhou primeiramente as funções de oficial de ligação da GNR no TO:

«Cheguei ao PCO em Escalos Fundeiros, onde à porta de um edifício se encontrava uma mesa com quatro cadeiras, tendo um computador portátil, com o Google Earth aberto, onde se encontravam dois elementos dos bombeiros que procediam ao que parecia ser a sectorização do incêndio.»

 

…, operador da VCOC do Corpo de Bombeiros de Peniche alude no seu depoimento que:

«Foi-nos comunicado para nos dirigirmos para o sítio onde estava o PCO, em Escalos Fundeiros, junta da Associação Recreativa. Estavam lá vários elementos, havia um SITAC elaborado numa carta militar, em cima de uma mesa.»

 

(página 55)

O COS, Cte. …, quando questionado em que momento se traçou o primeiro SITAC, refere:

«Foi quando se montou o PCO junta da Associação Recreativa de Escalos Fundeiros. A carta foi colocada em cima de uma mesa no exterior da Associação e traçado pelo oficial de planeamento o primeiro cenário. Julgo que o oficial de planeamento nunca traçou o pior cenário possível que pudesse acontecer.»

 

Cansados de tanta mesa, de tanto computador, de tanta cadeira, de tanto cenário, de tamanha organização?

O meu relatório fica por aqui. Que esse deus, dito todo-poderoso, nos proteja e livre da necessidade da Protecção Civil. Com ou sem comandante.

publicado às 18:40

É NATAL, NINGUÉM LEVA A MAL…

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A Marcelo, claro. De manhã, pode perfeitamente representar o papel do pastor que oferece uma casinha ao menino, em pelota e embrulhado em lençóis, e, à tarde, vestir-se de senador romano e andar pelas vielas de um qualquer presépio ao vivo, a distribuir abraços e afectos com a mesma simplicidade com que pilatos, o representante de Roma na Judeia, deixou que o menino fosse condenado à morte enquanto publicamente lavava as mãos. A mim, Marcelo inspira-me o mesmo sentimento de ternura de Tomás que, de cada vez que chegava a um qualquer lugar, declarava candidamente que era a primeira vez que ali estava desde a última vez que ali estivera. O mesmo Tomás que, depois de alguém lhe ter dito que, para abrir a porta do Toyota que Salvador Caetano lhe tinha oferecido, tinha de virar os dentes para cima, voltou a cabeça para o céu e, com a boca aberta, ficou calmamente à espera que a porta da viatura se abrisse. A verdade é que ao mais alto magistrado da nação ninguém leva a sério e, muito menos, se precisa de andar por aí todos os dias em bicos de pés a abraçar e a cantarolar «eu estou aqui». Seguem-no, fotografam-no até à exaustão, e preenchem as capas dos jornais e as aberturas de todos os noticiários da televisão, que muitos há para encher.

Com António Costa é diferente. Nem a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande o convida para o Natal. Bem pode andar por aí a entregar chaves de casas viaturas e a cantarolar «Hakuna Matata» para que todo o mundo esqueça os seus problemas e saboreie o primeiro verme que lhe apareça pela frente enquanto ingurgita: «Viscoso, mas gostoso». António Costa não é o Presidente da República Portuguesa, é o primeiro-ministro do Governo de Portugal e, enquanto tal, seja onde for e em que circunstâncias ou contexto for, em Dezembro de 2017, não pode abrir a boca, sorrir e cantarolar, como se fosse um suricata ou javali, este ano foi um ano particularmente saboroso, ainda que os números o tentem com o seu aspecto crocante e cremoso. Os incêndios que este ano fustigaram o país não foram propriamente um churrasco. Nem para Bruxelas nem para qualquer recanto português.

publicado às 09:33

70 MIL EUROS E MAIS DOIS CRITÉRIOS

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O Conselho para a atribuição de indemnizações às vítimas dos incêndios entregou esta terça-feira o relatório ao primeiro-ministro, fixando em 70 mil euros o valor mínimo para privação de vida, ao qual se somam ainda mais dois critérios.

Tão pouco dinheiro por uma vida, dirão alguns. O valor em si não me incomoda. Poderia ser 70 mil vezes sete. Ou simplesmente nada. Sentiria o mesmo. O que me perturba na notícia é a soma de mais dois critérios: o sofrimento da vítima antes da morte e os danos próprios dos familiares mais próximos.

Perturba-me e não percebo. E não concebo. Como pode alguém avaliar o sofrimento de quem encontrou a morte num incêndio, na fatídica N-236, por exemplo, e atribuir-lhe um valor? Um valor que acresce à própria morte?

Decididamente, perturba-me e não concebo que, ao valor incomensurável da vida, possa alguém acrescentar os danos próprios dos familiares mais próximos.

E se é natural que, para o Presidente da República, seja importante que a definição da indemnização definitiva seja feita o mais rapidamente possível, de preferência, antes do fim do ano, já não percebo que seja importante ser definida antes do Natal. Ordena-me o bom-senso que me fique por aqui.

 

publicado às 13:25

O DIABO VESTE ROSA?

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Tudo começou há dois anos com uma dor que me corria a espinha de baixo a cima e me impedia de trabalhar sentado à frente do computador. Ou talvez fosse a barriga obesa e redonda que a inactividade tornara flácida. Quando me pesei, os números da balança digital aproximaram-se dos 90.

Desde esse dia, mal me levanto, faça sol ou faça chuva, corro para o parque da Bela Vista. A subir e a descer, alternando caminhada com corrida, percorro todos os caminhos, cerca de 10 quilómetros. No final, agarro-me ao TRX, que prendo num pinheiro, acrescento uns abdominais, umas flexões, salto à corda sem corda, junto-lhe uns agachamentos, uns burpees, umas elevações de braços e outros exercícios do género e regresso a casa como novo. Revigorado no corpo (agora não passo dos 68 quilos, mesmo sem deixar de comer e de beber tudo o que me dá prazer) e no espírito. Porque o espírito também acompanha o ritmo desenfreado de todos aqueles exercícios, ora perdido em divagações sobre o mundo, sobre o homem e o sinuoso caminho para a imortalidade, ora prisioneiro das coisas simples da vida, o que irei cozinhar para o almoço?, ora praguejando contra tudo e contra todos, contra deus e o diabo e contra os seus filhos também.

Ontem mandei os exercícios às malvas. Com as palavras de Costa

não nos basta que o diabo não tenha vindo, é preciso garantir que o diabo não vai vir mesmo no futuro. Para garantir que o diabo não vem no futuro, nós temos de dar cada passo como demos até agora: com segurança e confiança de que não estamos a dar hoje algo que alguém vai ter de tirar amanhã

a baterem-me forte na cabeça, corri sem parar, em passada larga, batendo com raiva no asfalto, arrastando atrás de mim um turbilhão de imagens e ideias enquanto Costa continuava a gritar acima de mim como um possesso:

a ilusão de que é possível tudo para todos, já não existe isso

Portugal não pode sacrificar tudo o que conseguiu do ponto de vista da estabilidade financeira, porque isso, no futuro, colocaria em causa o que foi até agora conquistado.

Aqui, embora os meus pés não parassem de correr, o meu cérebro como que bloqueou. «Mas que conquistas?», perguntei-me.

Lentamente fui acossado com um ligeiro aumento das pensões, o apagão faseado da sobretaxa do IRS, a reposição dos salários na função pública, a promessa da descida do IRS, o termo reversões acendeu intermitente e difuso uma ou outra vez no meio da escuridão, até que fui possuído pelas chamas incandescentes do inferno da floresta a arder, pelos gritos agonizantes e desesperados das vítimas surpreendidas pelo fogo, pelo som estridente das sirenes das ambulâncias e dos carros dos bombeiros desgovernados, perante a desorganização e a impotência de uma Protecção Civil sem rei nem roque e que não sabia o que fazer, perante o balbuciar mudo de um governo que não sabia o que dizer e que também não tinha ouvidos para ouvir.

Primeiro estávamos em Junho e logo a seguir em Outubro, tudo repetido, tudo igual, sem norte, sem prevenção, sem meios, sem sentido e sem governo, tragédia seguida de tragédia, porque a água não passa duas vezes sob a mesma ponte, deve ter pensado quem nos governa, mas passou por Tancos, e já a Web Summit estava aí para nos salvar, no entanto, também ela se consumiu na indignidade de um jantar à luz de velas e círios que arderam no Panteão, e nem São Francisco Xavier nos salvou permitindo que a legionella infectasse quem ao seu hospital correu para se curar, expondo a nu as fragilidades de um sistema de saúde também ele prisioneiro e vítima das malhas de uma austeridade encapotada sob uma proclamada economia de rigor, a EMA bateu asas e voou para Amesterdão, como podia o governo não acreditar que esta ema não voaria para o Porto?…, mas ainda restava a EMA da gente:

A EMA da gente

É o Infarmed da gente,

A gente briga por causa do Infarmed da gente…

O meu cérebro andava agora num turbilhão propulsado pelo ritmo dos pés que não paravam de bater no asfalto, e saltou para o défice, bateu no défice com estrondo, o défice que nos mantém cativos e que traz o governo cativo numa roda viva de caladas cativações para que aos nossos olhos a rosa continue bem fermosa, este governo que com mesuras e algumas concessões a esquerda amansa, uma esquerda que numa leda mansidão o governo acompanha, não vá a sua revolta trazer de novo o papão que ostracizou, e que, numa cegueira que entranha, não estranha que o défice diminua apesar das reversões.

O défice das administrações públicas foi de 1838 milhões de euros até Outubro

Uma melhoria de 2664 milhões de euros

O excedente primário totalizou os 5762 milhões de euros, o que traduz um crescimento de 2765 milhões de euros,

Tanto excedente primário para que possamos empanturrar os que se alimentam dos juros da dívida pública, tantos milhões a menos no diabo do défice, que tem de continuar a diminuir para não colocarmos em causa o que até agora foi conquistado, tão pouco défice, o défice que nos mantém cativos e nos impede de viver a vida vivos, e tanto diabo...

E se o diabo, afinal, vestisse rosa?

Quando dei por mim estava a entrar em casa. Deve ter sido o que me salvou. Estava prestes a balbuciar: «Volta Passos, estás perdoado!»

Que o diabo me perdoe! A mim, que saltei e dancei setenta e sete vezes sobre a sua campa ainda o maldito Coelho estrebuchava nas mãos sagazes do caçador.

publicado às 12:08

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