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abrasivo on the rocks

O DIA DA MORTE DE JOSÉ SÓCRATES

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José Sócrates morreu. Mas não morreu no dia em que foi detido no aeroporto de Lisboa, nem em todos esses dias em que, ignorando o segredo de justiça ou o princípio da presunção de inocência, os media nos inundaram com notícias sobre as suas falcatruas e alegadas corrupções, não morreu no dia em que a SIC decidiu divulgar as gravações das suas declarações, não morreu nos dias em que dirigentes do PS se concertaram para proclamar a vergonha, a raiva ou a desonra, não morreu nem irá morrer no dia em que se consumará o seu julgamento.

José Sócrates morreu hoje, no dia em que Fernanda Câncio, ex-namorada e apaixonada por Sócrates, decidiu escrever sobre a «sua» tragédia. A «sua» tragédia: dela e dele.

publicado às 16:05

DO COR-DE-ROSA EMBARAÇO MÚTUO

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Ao fim de três anos e meio de um embaraço mútuo, Sócrates bateu com a porta, Costa diz-se surpreendido, mas respeita a decisão. O embaraço, esse, continua. O tempo médio de gestação de um elefante africano é de cerca de 650 dias, o elefante indiano fica-se pelos 625. Não há registos do tempo de duração da gestação do elefante
cor-de-rosa.   

publicado às 21:38

DA VERGONHA, DA RAIVA E DA PERPLEXIDADE DO PS

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Um gajo pode ser tudo na vida, até filho da puta, cornudo é que não.

Para mim não há outra explicação para a reacção do PS. Um PS que durante meses, anos (Sócrates foi detido no dia 21 de Novembro de 2014), se manteve em silêncio, e que decidiu falar grosso decorridos apenas uns dias sobre as notícias que dão conta do recebimento de milhões por parte de Manuel Pinho, o dos corninhos na testa.

César diz que o partido sente «vergonha» das suspeitas de corrupção que recaem sobre Manuel Pinho, e que, do caso que envolve Sócrates, «a vergonha até é maior porque era primeiro-ministro»; que ficam «enraivecidos com pessoas que se aproveitam dos partidos políticos. Galamba também admite que se sente envergonhado com o caso de José Sócrates e que, no PS, o caso de Manuel Pinho gerou perplexidade em toda a gente.

Vergonha, raiva e perplexidade.

Vergonha e raiva não sinto. Mas sinto perplexidade. É que, se é verdade tudo o que o Ministério Público diz de Sócrates, não estamos perante um caso que suscite vergonha, raiva e perplexidade, nem, como diz Ana Gomes, perante o caso de «um mitómano com vida financeira desregrada que se prestou e ao seu governo a ser infiltrado e manipulado por interesses de um grupo financeiro».

Vergonha e raiva não sinto. Mas sinto perplexidade. É que, se é verdade tudo o que o Ministério Público diz de Sócrates, pode alguém, com dois dedos de testa, acreditar que não houve conivência cúmplice ou cegueira ou indiferença de outros membros do seu governo? Porque é Sócrates o único arguido do seu governo? 

Vergonha e raiva não sinto. E também não sinto perplexidade. Sócrates até pode ser um mitómano, e até pode ter agido sózinho, mas não pactuo com a tese de que ele e o seu governo foram infiltrados e manipulados por interesses de um grupo financeiro. Sei quem governa e manipula. De vez em quando tem de atirar barro à parede para continuar a governar. E governa.

publicado às 17:24

OS CORNOS DA DEMOCRACIA

Segundo notícia do Observador, que terá tido acesso a um despacho de 11 de Abril dos procuradores Carlos Casimiro e Hugo Neto nos autos do caso EDP, Ricardo Salgado terá pago mensalmente a Manuel Pinho, de 18 de Outubro de 2006 a 20 de de Junho de 2012, o valor de 14 963, 94 euros, perfazendo mais de 1 milhão de euros. Parte desse valor, mais de 508 mil euros, terá sido recebido de Outubro de 2006 a Julho de 2009, período durante o qual Manuel Pinho foi ministro da Economia. Pelos vistos, para os procuradores, que decidiram constituir como arguido Ricardo Salgado, Manuel Pinho terá não só trabalhado para Ricardo Salgado antes e depois de ser ministro mas também durante o período em que exerceu as funções de ministro da Economia, procurando beneficiar o seu generoso empregador. Em causa estarão os contratos que possibilitaram as rendas chorudas da EDP, que até a troika considerou exorbitantes, bem como o prolongamento da concessão da exploração das barragens, que terão beneficiado a EDP em mais de 1,2 mil milhões de euros.

Se a concessão do dito benefício está pendente de prova, as suspeitas dos procuradores baseiam-se nas transferências mensalmente efectuadas para uma sociedade offshore descoberta a Manuel Pinho. Transferências mais cornudas não pode haver. E limpas, limpinhas. Sem corrupção, apenas com fuga ao fisco e passagem pela offshore: a provar-se a acusação, durante cerca de seis anos, o patrão, Ricardo Salgado, ter-se-ia limitado a pagar mensalmente o ordenado do seu empregado, Manuel Pinho, que, durante cerca de três anos, teria exercido as suas funções nas instalações do Ministério da Economia. O equívoco reside apenas no facto de ter-se pensado que se estava perante o ministro da Economia.

O seu afamado gesto assumiria assim outro significado: os cornos não eram dele; eram os cornos da democracia.

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Chegado aqui tenho de confessar que, desde que começaram a chover as acusações de corrupção contra Sócrates – independentemente de quando e como irá acabar o seu julgamento, ele já foi condenado, com ou sem presunção de inocência, na praça pública –, sempre me tenho perguntado: E os outros?

É que, a provar-se a corrupção, como pode tê-lo sido sozinho? Durante seis anos, teremos sido governados por um governo de paus-mandados, cegos, surdos e mudos, que tinham José Sócrates como primeiro-ministro?

Para já, parece que o primeiro-ministro de Manuel Pinho era Ricardo Salgado. Ou, durante pelo menos seis anos, terá sido Ricardo Salgado o primeiro-primeiro-ministro de Portugal?

publicado às 21:18

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