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abrasivo on the rocks

ISTO É QUE VAI UMA CRISE!

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Uma sandes de queijo sem manteiga, noticia o Expresso, numa clara manifestação de «independência face aos poderes políticos e conómicos».

Não deu para mais depois de ter pago o bilhete! Presidente sofre. Se a tempestade fosse perfeita e não «quase perfeita» talvez desse para uma sandes de tubarão, ou de ovas de esturjão-beluga, que é como quem diz de caviar.

publicado às 18:08

A VERGONHA DA POBREZA

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Estavam ambos nus, tanto o homem como a mulher, mas não sentiam vergonha.

Gn 2, 25

 

Todos conhecemos a história. Adão e Eva passeavam-se alegremente na inocência da sua santa ignorância pelo jardim do Éden, onde Deus os plantara. Mas tudo se alterou depois de terem comido o fruto da árvore da sabedoria. Descobriram-se nus, sentiram vergonha e deram início ao primeiro «jogo do empurra» da história da humanidade.

Histórias da Bíblia, dir-me-ão.

Ontem lembrei-me dela, desta história, quando ouvi Marcelo em toda a sua angelical e cândida inocência confessar que tinha vergonha. E não pude deixar de imaginar Marcelo, tal como veio ao mundo, a passear entre os quatro braços do Éden, distribuindo beijos e abraços enquanto martelava sincopadamente as sílabas dos nomes de toda a bicheza e passarada.

Não sei de que árvore comeu o fruto que o iluminou para ter vergonha, mas tudo indica que, em mais este jogo do empurra, a culpa só pode ser da serpente…

 

«Temos de ser capazes de fazer chegar à sociedade portuguesa a seguinte mensagem: ninguém é feliz ou pode ser feliz fingindo que não existe pobreza ao seu lado. Ou, dito de outra forma: é uma vergonha nacional sermos, em 2017, e agora já em 2018, das sociedades mais desiguais e com tão elevado risco de pobreza na Europa. Eu tenho vergonha», afirmou.

Leio e releio esta afirmação e não entendo. Não entendo a suposta felicidade, não entendo o fingimento ou a necessidade de fingir. Não entendo a  mensagem. Não entendo que a pobreza possa ser considerada uma vergonha nacional. E muito menos entendo que essa vergonha possa resultar do facto de sermos, em 2017, das sociedades mais desiguais e com tão elevado risco de pobreza na Europa.

Se o risco fosse menor devíamos sentir orgulho?

Adão e Eva tiveram vergonha da sua nudez e cobriram-na com folhas da figueira.

Marcelo, honra lhe seja feita, e ao contrário de Deus, que cobriu as vergonhas de Adão e Eva com túnicas de peles, não sugere que se esconda a suposta vergonha nacional, antes aponta para a necessidade de «uma estratégia autónoma nacional de combate à pobreza» que leve à sua erradicação.

Mas, que estratégia?

Não basta discordar daqueles que sustentam que «a solução passa exclusiva ou quase exclusivamente pelo crescimento que gera emprego e que acabará por chegar, mais tarde ou mais cedo, aos mais pobres dos pobres», ou defender um caminho condizente com a visão de «um personalismo assente na dignidade da pessoa humana».

É que, infelizmente, e sem quaisquer sentimentos de orgulho ou vergonha, não consigo dissociá-los de incontidas manifestações de sabedoria reptiliana, a pobreza não é um exclusivo nacional. A maior parte da população desempregada, em 25 dos 28 Estados da União Europeia, está em risco de pobreza. E não se pense que a pobreza é um exclusivo dos miseráveis e bacânticos países do Sul. Esta triste liderança pertence à Alemanha, onde 79,1% da população desempregada se encontram no limiar da pobreza. Mesmo depois dos apoios sociais transferidos, em cada 100 cidadãos europeus desempregados, 48 cidadãos têm rendimentos abaixo da linha de pobreza. E este flagelo não é exclusivo dos desempregados. Em 2016, em Portugal, 16,7% da população empregada estavam em risco de pobreza.

Fácil é atribuir toda esta situação aos baixos salários e aos parcos ou inexistentes apoios sociais. Fácil é reclamar o aumento dos salários e dos apoios sociais, defender o crescimento económico e a criação de postos de trabalho. E fácil é também proclamar «um personalismo assente na dignidade da pessoa humana».

Mais fácil ainda é proclamar a vergonha nacional. Que sentimento deveríamos ter perante a nudez que expõe as vergonhas nacionais de um sem-número de países africanos?

Porque, vergonhas à parte, a nossa vergonha e as vergonhas da Europa deveriam ser motivo de reflexão.     

E, aqui, volto de novo à Bíblia, ao castigo de Deus que condenou o homem a trabalhar todos os dias da sua vida. Não sei se ainda haverá alguém que encare o trabalho como um castigo divino, mas o que é um facto é que vivemos na sociedade do trabalho. É o trabalho que dita o valor do salário. É o trabalho que dita o valor dos apoios sociais. É o valor do trabalho que define o limiar da pobreza.

Poderá a sociedade do trabalho ser conciliada com «um personalismo assente na dignidade da pessoa humana?

A realidade da pobreza diz-nos que não. No entanto, quando lemos os comentários às palavras de Marcelo (que recuso classificar), apercebemo-nos de que há ainda um longo caminho a palmilhar.

É muito difícil libertarmo-nos dos grilhões do trabalho. Mais fácil foi quebrar os grilhões da escravidão. Que, diga-se, ainda existe.

publicado às 09:05

ESPELHO MEU, ESPELHO MEU…

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Na cerimónia de apresentação de cumprimentos de ano novo do corpo diplomático acreditado em Portugal, depois de apresentar a política externa portuguesa, Marcelo decidiu falar da política interna que a acompanha e ajuda a concretizar. Uma política que, na sua opinião, é hoje clara:

«Crescimento e emprego, investimento e exportações, turismo e digital, novas tecnologias e energias renováveis.

E para tanto: finanças sãs, equilíbrio orçamental, redução dos juros da dívida, consolidação bancária, concertação social, explícita ou implícita.

Mas também educação, qualificação, inovação, correcção de injustiças e desigualdades – no território, nos grupos, nas pessoas –, apostas em novas parcerias em sectores-chave, renovação do tecido empresarial, melhoria na justiça, garantia nas funções clássicas do Estado e nos sistemas sociais.

Tudo assente em estabilidade política, busca de convergências de regime, preocupação de ajustamento do sistema representativo, proximidade das pessoas, respeito atento da soberania popular – para não darmos uma aberta ao populismo, à demagogia, à xenofobia, aos cantos de sereia dos messianismos, dos sebastianismos, dos providencialismos verbalistas ou musculados.»

Um manifesto de governo ditado pelo Presidente da República, que um dia sonhou ser primeiro-ministro de Portugal, ou sonha que pelo menos na prática o possa ser, se acaso era a sua voz que se ouvia, ou se, por outro lado, era a sua voz que se limitava a replicar o que lhe ditava o homem do espelho, que o espelhava, ou não, como muito bem podia espelhar a imagem da Branca de Neve, que se viria a apaixonar pelo caçador que a salvou, ou da rainha Ravenna que tudo secava à sua volta para salvaguarda da sua beleza e imortalidade, ou apenas lhe retribuía a imagem que ele gosta de ver espelhada: o presidente dos sorrisos e dos afectos, que, ao contrário da rainha, não tira, mas dá vida e alegria aos corações despedaçados.

publicado às 09:01

UM PESADELO DE NATAL

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Não tenho deixado de pensar em Freud desde que acordei.

A cegonha é a única criatura singular em toda esta história. Quando dei por mim já ela voava de volta num céu muito azul que recortava as penas cinzentas das suas asas abertas. Eu estava deitado nas palhinhas como o menino no presépio de Belém. E foi quando deixei de ver o tom rosado das suas patas estiradas e firmes que tudo começou.

Porque tiritava de frio uma vaca aproximou-se, mas não era uma vaca qualquer, vestia de negro e tinha a cara do professor Marcelo estampada no focinho quando me bafejou. E vestido de negro estava o burro que me olhava com uns olhos mortiços perdidos na mesma estampa, pendida de lado, sem saber se devia ficar com a boca fechada, ou mostrar os dentes e zurrar. E de negro vestida estava a Virgem, que com a mão direita me acariciava o rosto, mas também ela não era virgem nem tinha rosto de mulher, e os seus olhos, apesar de apenas entreabertos, também eles espelhavam os olhos da vaca e do burro que, por sua vez, se espelhavam nos olhos esbugalhados daquele que supostamente deveria ser o meu pai, quiçá, admirado por me encontrar ali em tais preparos.

O pastor que me olhava de cima com a cabeça reclinada, era sem dúvida o nosso Presidente da República, vestido de verde e vermelho, as cores da bandeira nacional, e pareceu-me que me oferecia uma casa pequenita que ostentava orgulhoso entre o polegar e o indicador da sua mão direita. Digo pareceu-me porque de imediato a casita começou a arder e a rolar como se fosse um pedrógão enorme que tudo levada à sua frente. Assustado, levantei-me de um salto, só o Menino Jesus o poderia ter feito, com aquela idade e naqueles preparos, enfiei o lençol entre as pernas para esconder as partes podengas, afinal talvez não estivesse deitado nas palhinhas de Belém, e desatei a correr enquanto pensava que só uma rena me poderia salvar. E, de repente, lá estava ela sorridente com o seu nariz vermelho e luminoso, dava pelo nome de Rodolfo, e só podia mesmo ser a rena do Pai Natal. Montei-a ainda o diabo não tinha esfregado o olho esquerdo e ela voou por sobre vales e montanhas. Acreditava eu que só pararia no Pólo Norte quando olhou para trás com aqueles olhos que não deixavam de me perseguir e começou a escoicinhar até me fazer cair.

Devo ter perdido os sentidos na queda. Quando acordei, já crescidinho, estava deitado numa cama algures na terra de nenhures. Vestia um vestido branco como a Branca de Neve e tinha as mãos e os pés atados como se fosse um cristo de pernas abertas. À minha volta, numa dança estranha que mais parecia a dança da chuva das tribos indígenas, dançavam sete anões com enormes barbas brancas e barretes vermelhos como se fossem sete pais natais, e as barbas e os barretes saltavam para cima e para baixo deixando entrever, lá muito atrás de umas bochechas rosadas, os mesmos olhos da rena, do pastor, de São José, da Virgem, do burro e da vaca. E ainda a dança já não era dança quando começou a chover e eu já não era a Branca de Neve vestida de branco, era uma árvore enorme que cresceu e cresceu rumo ao céu muito azul, onde pairava de novo a cegonha, até começaram a brotar de todos os seus ramos milhões de marcelinhos todos muito pequeninos, mas vestidinhos de negro.

Acreditem ou não, não tenho deixado de pensar em Freud. Eu acredito que um dia voltará à Terra só para me explicar isto.

publicado às 09:06

É NATAL, NINGUÉM LEVA A MAL…

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A Marcelo, claro. De manhã, pode perfeitamente representar o papel do pastor que oferece uma casinha ao menino, em pelota e embrulhado em lençóis, e, à tarde, vestir-se de senador romano e andar pelas vielas de um qualquer presépio ao vivo, a distribuir abraços e afectos com a mesma simplicidade com que pilatos, o representante de Roma na Judeia, deixou que o menino fosse condenado à morte enquanto publicamente lavava as mãos. A mim, Marcelo inspira-me o mesmo sentimento de ternura de Tomás que, de cada vez que chegava a um qualquer lugar, declarava candidamente que era a primeira vez que ali estava desde a última vez que ali estivera. O mesmo Tomás que, depois de alguém lhe ter dito que, para abrir a porta do Toyota que Salvador Caetano lhe tinha oferecido, tinha de virar os dentes para cima, voltou a cabeça para o céu e, com a boca aberta, ficou calmamente à espera que a porta da viatura se abrisse. A verdade é que ao mais alto magistrado da nação ninguém leva a sério e, muito menos, se precisa de andar por aí todos os dias em bicos de pés a abraçar e a cantarolar «eu estou aqui». Seguem-no, fotografam-no até à exaustão, e preenchem as capas dos jornais e as aberturas de todos os noticiários da televisão, que muitos há para encher.

Com António Costa é diferente. Nem a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrógão Grande o convida para o Natal. Bem pode andar por aí a entregar chaves de casas viaturas e a cantarolar «Hakuna Matata» para que todo o mundo esqueça os seus problemas e saboreie o primeiro verme que lhe apareça pela frente enquanto ingurgita: «Viscoso, mas gostoso». António Costa não é o Presidente da República Portuguesa, é o primeiro-ministro do Governo de Portugal e, enquanto tal, seja onde for e em que circunstâncias ou contexto for, em Dezembro de 2017, não pode abrir a boca, sorrir e cantarolar, como se fosse um suricata ou javali, este ano foi um ano particularmente saboroso, ainda que os números o tentem com o seu aspecto crocante e cremoso. Os incêndios que este ano fustigaram o país não foram propriamente um churrasco. Nem para Bruxelas nem para qualquer recanto português.

publicado às 09:33

A RARÍSSIMAS ERA UM PROJECTO LINDÍSSIMO

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É António Cunha Vaz, membro do Conselho Consultivo da Raríssimas que reuniu uma vez há cinco ou seis anos, quem o escreve. E acrescenta: Se houve irregularidades que se julguem. Se calhar também me devia demitir. Mas não tenho de onde.

Segundo a informação oficial – que consta da base de dados do Ministério da Justiça veiculada pelo Informa –, integram o conselho consultivo da associação Leonor Beleza, enquanto presidente, Maria de Belém Roseira, Fernando Ulrich, Isabel Mota, Pedro Pitta Barros, António Cunha Vaz e Roberto Carneiro, como vogais, entre outros, mas, para já, apenas Cunha Vaz assumiu a sua condição.  

A ex-ministra da Ciência Maria da Graça Carvalho negou integrar o conselho consultivo. O mesmo se passa com a ex-ministra da Saúde Maria de Belém Roseira. Maria da Graça Carvalho, garante que «nunca» fez parte do conselho consultivo e que nem sequer sabia que o seu nome constava nos registos oficiais. E Isabel Mota diz que foi convidada em 2014 para ser vogal do conselho consultivo, que aceitou o convite, mas nunca chegou a ser convocada para nenhuma reunião.

A Raríssimas terá sido um projecto lindíssimo, mas agora parece ter sido atacada pela lepra e todos fogem dela. Ninguém quer ser infectado como Manuel Delgado, que já teve de se demitir do Governo.

E quem fala dela, fala com muito cuidado, medindo e pesando as palavras, como se as próprias palavras fossem portadoras do bacilo Mycobacterium leprae. Se Vieira da Silva, por exemplo, afirma que nem eu nem a minha equipa tivemos qualquer informação sobre denúncias de gestão danosa e faz questão de sublinhar actos de gestão danosa (gestão danosa o que será, será?), já Marcelo Rebelo de Sousa, medindo a justa medida de cada sílaba, declara que a Belém não chegou nada de específico, de concreto relativamente ao que se passava em termos de ilegalidade. E, portanto, digamos assim, os dados concretos vieram a ser conhecidos por todos nós quando foram objecto de um programa de televisão.

E se de umas e outras palavras não é legítimo que se possa inferir que um e outro poderiam eventualmente ter conhecimento de algo que as suas exactas palavras não revelam, já é legítimo concluir, dados os factos concretos que vieram a ser conhecidos por todos nós quando foram objecto de um programa de televisão, que a Segurança Social, que Vieira da Silva tutela, distribui milhões pelas IPSS como quem atira ao ar um quilo de farinha numa noite de vendaval, e que Marcelo Rebelo de Sousa distribui abraços e afectos sem se preocupar se esses abraços ou afectos dão credibilidade a quem pretende apropriar-se deles para locupletar-se. Num bom samaritano aceita-se. Num Presidente da República…

Que interessa?…

São rosas, meu amor, são rosas.

publicado às 17:26

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