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abrasivo on the rocks

UM PESADELO DE NATAL

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Não tenho deixado de pensar em Freud desde que acordei.

A cegonha é a única criatura singular em toda esta história. Quando dei por mim já ela voava de volta num céu muito azul que recortava as penas cinzentas das suas asas abertas. Eu estava deitado nas palhinhas como o menino no presépio de Belém. E foi quando deixei de ver o tom rosado das suas patas estiradas e firmes que tudo começou.

Porque tiritava de frio uma vaca aproximou-se, mas não era uma vaca qualquer, vestia de negro e tinha a cara do professor Marcelo estampada no focinho quando me bafejou. E vestido de negro estava o burro que me olhava com uns olhos mortiços perdidos na mesma estampa, pendida de lado, sem saber se devia ficar com a boca fechada, ou mostrar os dentes e zurrar. E de negro vestida estava a Virgem, que com a mão direita me acariciava o rosto, mas também ela não era virgem nem tinha rosto de mulher, e os seus olhos, apesar de apenas entreabertos, também eles espelhavam os olhos da vaca e do burro que, por sua vez, se espelhavam nos olhos esbugalhados daquele que supostamente deveria ser o meu pai, quiçá, admirado por me encontrar ali em tais preparos.

O pastor que me olhava de cima com a cabeça reclinada, era sem dúvida o nosso Presidente da República, vestido de verde e vermelho, as cores da bandeira nacional, e pareceu-me que me oferecia uma casa pequenita que ostentava orgulhoso entre o polegar e o indicador da sua mão direita. Digo pareceu-me porque de imediato a casita começou a arder e a rolar como se fosse um pedrógão enorme que tudo levada à sua frente. Assustado, levantei-me de um salto, só o Menino Jesus o poderia ter feito, com aquela idade e naqueles preparos, enfiei o lençol entre as pernas para esconder as partes podengas, afinal talvez não estivesse deitado nas palhinhas de Belém, e desatei a correr enquanto pensava que só uma rena me poderia salvar. E, de repente, lá estava ela sorridente com o seu nariz vermelho e luminoso, dava pelo nome de Rodolfo, e só podia mesmo ser a rena do Pai Natal. Montei-a ainda o diabo não tinha esfregado o olho esquerdo e ela voou por sobre vales e montanhas. Acreditava eu que só pararia no Pólo Norte quando olhou para trás com aqueles olhos que não deixavam de me perseguir e começou a escoicinhar até me fazer cair.

Devo ter perdido os sentidos na queda. Quando acordei, já crescidinho, estava deitado numa cama algures na terra de nenhures. Vestia um vestido branco como a Branca de Neve e tinha as mãos e os pés atados como se fosse um cristo de pernas abertas. À minha volta, numa dança estranha que mais parecia a dança da chuva das tribos indígenas, dançavam sete anões com enormes barbas brancas e barretes vermelhos como se fossem sete pais natais, e as barbas e os barretes saltavam para cima e para baixo deixando entrever, lá muito atrás de umas bochechas rosadas, os mesmos olhos da rena, do pastor, de São José, da Virgem, do burro e da vaca. E ainda a dança já não era dança quando começou a chover e eu já não era a Branca de Neve vestida de branco, era uma árvore enorme que cresceu e cresceu rumo ao céu muito azul, onde pairava de novo a cegonha, até começaram a brotar de todos os seus ramos milhões de marcelinhos todos muito pequeninos, mas vestidinhos de negro.

Acreditem ou não, não tenho deixado de pensar em Freud. Eu acredito que um dia voltará à Terra só para me explicar isto.

publicado às 09:06

CABRITO ASSADO NO FORNO COM ARROZ DE MIÚDOS

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Comece por tirar os miúdos do cabrito, retire o bedum das patas traseiras e limpe-o de peles e gorduras.

Na trituradora, processe 2 cebolas, 6 dentes de alho, 100 gramas de presunto, 50 gramas de banha, 1 dl de vinho branco seco, 1 colher de sobremesa de colorau, 1 colher de chá de paprica fumada, sal grosso e pimenta preta moída na ocasião.

Barre o cabrito, por dentro e por fora, com esta papa.

Corte 3 cebolas às rodelas, cubra o fundo do tabuleiro com elas, espalhe pedaços de 2 folhas de louro e alguns ramos de alecrim fresco. Deite o cabrito nesta cama, cubra-o com ramos de salsa fresca e deixe-o a dormir até ao dia seguinte.

Acorde o cabrito com 2 dl de vinho branco seco, polvilhe-o com alecrim e tomilho secos, rodeie-o com batatinhas para assar temperadas com sal, colorau e pimenta preta, tempere com sal, espalhe por cima umas nozes de banha e leve a assar em forno pré-aquecido a 200° C. De vez em quando regue-o com o molho e vire-o a meio da assadura.

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Entretanto, pique finamente e com muita paciência o fígado, os rins e o coração do cabrito.

Pique 1 cebola e leve-a a estalar com 3 colheres de azeite virgem, junte 2 dentes de alho picados e 1 folha de louro e deixe refogar um pouco. Deite os miúdos, polvilhe com 1 colher de sobremesa de colorau e 1 colher de chá de cominhos em pó e salteie-os.

Regue com ½ dl de vinho branco seco, tape e deixe cozer suavemente em lume brando. Quando o líquido começar a desaparecer, junte 300 gramas de arroz vaporizado e deixe fritar um pouco. Junte-lhe água quente (o dobro do volume do arroz) e deixei cozer tapado até secar.

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Suspiro!… E uma garrafa de tinto.

publicado às 09:45

ARROZ-DOCE À MODA DE MINHA MÃE E DE LORIGA TAMBÉM

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O arroz-doce

Num fervedor leve a lume médio 2 litros de leite gordo com o vidrado de ½ limão (a casca sem a parte branca) e 1 pau de canela.

Depois de levantar fervura, mantenha-o em lume brando.

Num tacho, em lume médio, deixe ferver 6 dl de água e uma pitada de sal.

Quando entrar em ebulição, deite 150 gramas de arroz carolino. Mexa com uma colher de pau.

Logo que o arroz absorva a água, reduza para lume brando.

Junte um pouco do leite.

(O leite deve ser acrescentado aos poucos. Não é preciso medir. Calcule que vai deitar o leite por oito ou dez vezes. Não se esqueça de mexer com a colher de pau. É importante que a colher passe pelo fundo do tacho para que nada aí se deposite.)

Sempre a mexer, deixe engrossar e acrescente mais um pouco de leite a ferver. Continue a mexer e deixe engrossar de novo. Repita a operação até quase esgotar o leite.

(Não se esqueça: deve deitar o leite aos poucos, entre cada adição deve mexer e deixar engrossar e não deve deixar aderir ao fundo. O arroz deve estar sempre em ebulição. O processo demorará pelo menos 1 hora. Se em algum momento sentir que está a agarrar ao fundo, mude de tacho. Não corra o risco de deixar o seu arroz-doce queimar.)

Junte 450 gramas de açúcar e mexa. Quando voltar a levantar fervura, adicione o leite restante, sem o limão e a canela, e continue a mexer.

Quando sentir (estas coisas sentem-se!) que tem nas mãos um arroz-doce deliciosamente cremoso, retire-o do lume.

Deixe-o arrefecer sem ir ao frigorífico.

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O leite-creme

No fervedor, em lume brando, leve a levantar fervura 5 decilitros de leite gordo com 1 pau de canela e o vidrado de ½ limão.

Numa tigela, mexa 10 gemas de ovo com 100 gramas de açúcar. Sempre a mexer, deixe cair em fio os 5 decilitros do leite a ferver. Coe a mistura com um passador de rede fina, deite num tacho e leve a cozer em lume brando.

Sempre a mexer com uma colher de pau, deixe engrossar até obter um creme com uma textura fina e delicada, que começa a aderir à colher. Retire do lume imediatamente antes de começar a levantar fervura.

Deite o leite-creme numa travessa e deixe arrefecer.

No momento de servir, polvilhe o leite-creme com açúcar e queime-o com um ferro em brasa.

(Não se esqueça. Queime-o só no momento de servir.)

 

Como servir

Decore o arroz-doce com canela. Já na mesa, coloque um pouco de arroz-doce

em cada prato, deixando um buraco no centro. Nesse buraco, deite 3 colheres

de leite-creme e sirva.

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A minha mãe partiu sem que eu tivesse tempo de lhe pedir a sua receita

de arroz-doce, mas este meu arroz-doce é quase tão bom como o melhor

arroz-doce do mundo, que era o arroz-doce de minha mãe. Seja a minha mãe aquela que por felicidade minha me gerou, ou seja apenas aquele torrão de terra que me fez crescer.

Bom Natal 

publicado às 09:39

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