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abrasivo on the rocks

A CULPA É DA SERPENTE?

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Não nos referimos à serpente condenada por Deus a rastejar sobre o seu ventre e a alimentar-se de terra todos os dias. Como poderia tal ser, para muitos mais do que repugnante, seduzir a mulher levando-a a comer do fruto proibido? Falamos do mais astuto dos animais, a crer no relato da Bíblia, e que à astúcia deveria por certo juntar atributos suficientemente convincentes, atraentes e irresistíveis a ponto de convencer a mulher a desafiar o risco de provocar a sua própria morte, se é que na sua santa ignorância poderia a mulher, que com o homem se passeava na inocência de toda a sua nudez pelo jardim do éden, fazer a mínima ideia do que viver ou morrer significavam.

Mas deixemos de parte tais tergiversações. Reza a Bíblia que a mulher não só provou a maçã como, por ter gostado, também a deu a provar ao seu marido, provocando a ira de Deus que a castigou com os sofrimentos da gravidez, as dores do parto e a sujeição ao seu marido, e que condenou o homem ao trabalho durante todos os dias da sua vida.

Hoje já ninguém defende a letra do Génesis nem sequer faz sentido perguntar «isto passou-se realmente assim?». E, no entanto, a sociedade, e independentemente da religião dominante, ainda hoje age ou parece agir como se fosse guardiã e garante do cumprimento daquela justiça divina, quer assegurando e sublinhando a natural – porque faz parte da sua natureza – discriminação do homem e da mulher, que Deus também discriminou condenando-os a duas penas distintas (terá o comportamento do homem merecido uma moldura penal menos gravosa, admitindo que as dores do parto e a sujeição ao marido serão pena mais pesada do que a simples condenação ao trabalho porque se limitou a comer do fruto que a sua mulher lhe ofereceu?), quer procurando assegurar que o homem continua a arrancar o seu alimento à custa de penoso trabalho. Trabalho que hoje, mais do que nunca e quando a própria sociedade o reserva como privilégio de apenas alguns, permeia, condiciona e determina todos os aspectos da vida humana, como se não houvesse vida além do trabalho, como se o homem existisse apenas para trabalhar e apenas onde, quando e durante o tempo que a sociedade entende que o pode e deve fazer.

publicado às 09:13

O TRABALHO LIBERTA?

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 A pergunta fica no ar movendo-se insidiosa, provocadora ou profanante, ínscia, por entre um turbilhão de imagens que pululam no silêncio que paira para lá do portão de ferro forjado de Dachau, outrora sacudido pelo matraquear seco e surdo, osso contra osso, de corpos mirrados que o atravessavam trôpegos a caminho de mais um dia de trabalho de escravo, e que se erguem em surdina entre o coro de hebreus que, prisioneiros e escravos de Nabuco, cantam a pátria bela e perdida enquanto descansam acorrentados nas margens do Eufrates, um coro repercutido em hosanas de vozes negras destilando suor nos campos de algodão da Luisiana, ou no grito de 500 mil em marcha pelas ruas de Chicago, no ribombar dos canhões de Navarone e no silêncio da morte em Nagasáqui e Hiroxima, no som metálico da espada contra espada e do escudo contra escudo dos gladiadores romanos, e no martelo que bate ritmado o ferro em brasa na bigorna do ferreiro, no som cavo da enxada que rasga a terra do latifúndio alentejano, na foice que sega sibilante os campos de trigo, na zaragata ensurdecedora das lançadeiras que na minha infância distribuíam lã nos teares da fábrica Nova de Loriga, no atropelo vociferante que compra e vende acções em Wall Street, nas teclas do computador que debita no ecrã notícias de última hora, no soalho roçado que recebe o sangue dos joelhos rasgados da mulher-a-dias, na voz professoral que declama contas de somar e de subtrair a propósito de um comboio que parte de Lisboa para o Porto ou da água da torneira que enche o tanque do quintal, sons e imagens que se fundem e perpetuam e que confundem, que se agigantam e esvaem num espasmo quando o grito de uma mulher se consome de alegria mal a cabeça de uma criança lhe rasga as entranhas convulsas em trabalho de parto, o fruto das dores misericordiosas da criação divina na sua luta perdida contra a serpente e contra a natural aspiração do homem ao conhecimento que um dia o vai libertar da praga do jugo do trabalho.

publicado às 09:03

MUDANÇAS A SÉRIO, NINGUÉM AS QUER

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Nem o PCP, que não está satisfeito com o rumo que leva a geringonça e que, em matéria de legislação laboral, diz que não é suficiente reverter as alterações à lei laboral introduzidas pelo governo PSD/CDS; nem o BE, que diz que é necessário reverter a legislação laboral imposta durante o período da troika, por forma a aumentar salários e combater a precariedade; e muito menos o Governo que, nesta matéria, apenas admitirá mexer no banco de horas e no trabalho nocturno e, quiçá, criar diferentes taxas contributivas consoante a natureza dos contratos de trabalho. Do PSD e do CDS nem vale a pena a falar.

Bem podem falar do combate à precariedade, à prevalência dos contratos a prazo, do alívio das penalizações para os reformados com décadas de descontos para a Segurança Social, da reconstrução dos direitos laborais como via para a valorização dos salários, ou da reposição dos valores das indemnizações para combater o despedimento abusivo; podem falar de tudo, de reposições ou reversões, mas, mudanças a sério, ninguém as quer, porque, na sua essência, todos defendem a sociedade do trabalho em que vivemos, uma sociedade que exclui quem não trabalha e que discrimina em função do trabalho, uma sociedade em que um indivíduo, mesmo quando já conquistou o direito de não trabalhar, ou por questões de saúde ou de idade, continua a ser discriminado em função do valor do trabalho produzido durante a sua vida dita «activa»;  uma sociedade que indemniza quem despede em função dos anos de trabalho e não porque lhe tirou a oportunidade de trabalhar; uma sociedade que privilegia e discrimina consoante os diferentes contratos de trabalho; porque vivemos numa sociedade em que quem não está a trabalhar não está a fazer nada, como não estão a fazer nada o pai ou a mãe que em casa confeccionam a refeição da família, ou a mãe e o pai que em casa ensinam os seus filhos a ler e a escrever, ou aquele(a)s que em casa cuidam dos seus familiares que estão doentes ou são portadores de deficiências físicas ou psíquicas, ou aquela(e)s que costuram as roupas, amassam e cozem o pão, cultivam tudo o que comem, animais ou vegetais, ou aquele(a)s que em casa estudam e procuram adquirir conhecimento; uma sociedade que valoriza e distingue quem trabalha e, por isso, até tem direito a uma reforma: os cozinheiros, os professores, os médicos e enfermeiros, os costureiros, os padeiros, os produtores de carne, os agricultores e os investigadores e todos os demais ditos trabalhadores. A nata contra a escória da sociedade.

publicado às 09:03

PS, PSD E CDS SÃO FARINHA DO MESMO SACO

Cristas bem pode cantar de galo que é necessário combater as esquerdas unidas e BE e PCP até podem continuar a fingir que dão suporte a um governo de esquerda, na hora da verdade, o verniz estala e vem à superfície a madeira que, de facto, suporta este governo: quando estão em causa o trabalho e o capital, PS, PSD e CDS são farinha do mesmo saco e estão e estarão sempre do lado do capital.

Só não vê quem não quer ver ou teve de engolir um sapo com receio de ser obrigado a comer Coelho todos os dias: O PS nunca esteve nem estará ao lado de quem trabalha, até pode distribuir umas migalhas, se isso for necessário para se agarrar ao poder, mas, na hora da verdade, estará sempre contra quem trabalha e votará sempre contra os seus direitos, como votou contra o aumento das horas extraordinárias e o descanso compensatório. Resta saber até quando BE e PCP vão ser obrigados a continuar a fingir que dão suporte a um governo de esquerda.

publicado às 16:21

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