Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

abrasivo on the rocks

TRABALHADORES DA AUTOEUROPA CHUMBAM PRÉ-ACORDO

autoeuropa.jpg

 Pela segunda vez, num curto espaço de tempo, os trabalhadores da Autoeuropa chumbam um pré-acordo negociado entre a administração da empresa e a comissão de trabalhadores.

A primeira vez aconteceu em Julho, provocou a demissão da comissão trabalhadores e levou à realização de uma greve no dia 30 de Agosto. Uma greve que não houve cão nem gato que não condenasse. Dizia-se que era uma guerra partidária, que até o homem – só podia ser um super-homem – que tinha conseguido regalias incríveis para quem ali trabalhava estava contra, que a empresa, em troca, até garantia aos trabalhadores mais um dia de férias e 175 euros por mês, que os trabalhadores deviam orgulhar-se por a empresa em que trabalhavam ter sido escolhida para produzir o T-Roc – eventualmente uma espécie de novo T-Rex da VW –, que o país inteiro estava contra os trabalhadores, que os trabalhadores da Autoeuropa eram a aristocracia operária em Portugal, que eram os mais bem pagos, os que tinham melhores condições, que estavam em causa 10% das nossas exportações, 0,8% do PIB nacional, que a empresa podia ser deslocalizada, que, se a Autoeuropa se fosse embora, Portugal nunca mais conseguiria atrair nenhuma grande empresa, todo um sem-número de argumentos em que havia lugar para tudo menos para o homem que ali trabalha e que apenas reclama o direito a parar dois dias seguidos para poder descansar e contemplar a grandeza da obra realizada.

Ontem, noventa dias depois da greve, os trabalhadores votaram e chumbaram o pré-acordo negociado pela nova comissão de trabalhadores.

Não são conhecidas grandes reacções. A administração diz que está a analisar os resultados, Vieira da Silva admite que este impasse representa um risco para a fábrica de Palmela e apela a todos os intervenientes para que encontrem soluções, Manuel Caldeira Cabral apela ao sentido de responsabilidade dos trabalhadores e dirigentes, o líder da comissão de trabalhadores, Fernando Gonçalves, diz que o novo passo deve ser o retomar das negociações e salienta que ainda há tempo para chegar a um acordo.

Descarto a administração, descarto Vieira da Silva e Manuel Caldeira Cabral, mas pergunto-me: com quem pretende negociar e chegar a acordo Fernando Gonçalves? Com a administração, com a qual já foram celebrados dois pré-acordos que os trabalhadores posteriormente rejeitaram?

E com que força e credibilidade se pode partir para a negociação de um terceiro acordo? Porque há-de a administração negociar com uma comissão de trabalhadores que, sucessivamente, vê recusados os pré-acordos celebrados?

Não aconselharia o bom-senso que o próximo passo da comissão de trabalhadores fosse descer à terra para ouvir o que os trabalhadores que representa têm para dizer? Saber com que linhas se pode coser? Saber quais são, na opinião dos trabalhadores que representa, as linhas que definem e limitam a sua capacidade negocial?

Ou será que nada disto tem que ver com bom-senso? Que tudo isto nada tem que ver com laboração contínua versus descanso semanal, mas com um processo subterrâneo que visa minar o poder de quem trabalha e destruir a própria comissão de trabalhadores enquanto órgão de exercício de poder pelos trabalhadores?   

publicado às 18:22

Mais sobre mim

imagem de perfil